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Fraudes em concursos públicos

 

Fraudes em concursos públicos

                                                                                                          Waldir Santos *

 Escolha cinco amigos que participam de concursos e cinco que nunca tenham participado, e faça-lhes a seguinte pergunta: “Você acha que existe muita fraude em concursos?”. Os dois grupos certamente darão respostas divergentes. Considerando que os dez entrevistados tenham semelhante nível cultural e de informação, ficamos a imaginar a que se deve tal oposição de opiniões. À primeira vista é confortável concluir o óbvio, e imaginar que quem participa acredita e confia, e quem não o faz é porque entende que concurso é uma farra de marmeladas. Tal não é a situação, no entanto.

O concurseiro é naturalmente mais informado sobre o tema. Ele vive o concurso em seu cotidiano, conhece pessoas próximas que foram aprovadas, e sabe de seus méritos, limites e capacidades, além de perceber claramente um certo equilíbrio de resultados em cada candidato conhecido. O observador sabe que o método de seleção por concurso, mesmo não sendo perfeito, é o mais justo e democrático de que podemos dispor. Quando alguém surpreende com uma aprovação inesperada, o que não é tão raro, há uma explicação, já que não se é aprovado por mágica ou da maneira como se acerta em loterias. Por exemplo, a concorrência estava baixa devido a vários concursos simultâneos, ou houve poucos inscritos, ou as questões mais valiosas foram exatamente sobre os assuntos que o aprovado domina etc.

A pessoa que está alheia aos concursos, muitas vezes escuta lamúrias de reprovados iniciantes, que imaginam que o processo de aprovação é sempre rápido. Estes frequentemente acham que, por terem sido bons alunos nos colégios e faculdades, terão imediato sucesso nos concursos. Se persistirem na busca por um cargo efetivo, descobrirão que a forma de estudar mais eficaz é própria para os concursos, e que a forma mais produtiva de enfrentar as provas também é muito diferente daquela à qual estava habituado. Se não se busca orientação especializada, demora-se um pouco para aprender isso. A que atribuir, então, aquilo que é equivocadamente visto como derrota, se a pessoa estudou muito e às vezes até se saiu bem nos exercícios, e por isso acreditava estar preparado? Certamente não dirá que lhe faltou esforço ou inteligência. A causa mais apontada costuma ser a existência de fraude, e muita gente, com essa desculpa, desiste dos concursos, deixando escapar sua redenção profissional.

Há concurseiros que insistem em divulgar fraudes pontuais, e são bons em argumentos desestimulantes, mas não param de fazer provas. Provavelmente trata-se de uma estratégia pouco ética de reduzir a concorrência, do que não vou tratar aqui. Há quem diga que algumas vagas são fraudadas e outras são conseguidas pelas pessoas que se esforçaram, como se existisse o meio-ladrão, ou o meio-ético. Tal posição, que chega a ser risível, busca explicar como pessoas sabidamente sérias são aprovadas, quando se questiona tal fato.

Sim, existem concursos fraudados, mas não na proporção que muitas pessoas alardeiam. Observem as formas mais comuns de fraude. Nos famosos casos do CESPE e do Enem, por exemplo, houve furto de prova impressa. Noutros, uso de ponto eletrônico, receptores em sapatos e relógios, contratação de pessoas preparadas para responderem as provas no dia da aplicação etc. Já que os desonestos recorrem a esses meios, que não são baratos nem tão simples de implementar, e que por vezes resulta em tanta gente presa, é preciso reconhecer que as instituições organizadoras, ao menos as maiores e  que são vítimas de tais mecanismos, são confiáveis, não se podendo pensar o contrário das demais, enquanto não haja fato indicativo de desonestidade em suas atividades. Seu maior produto é a credibilidade, e muitas já desapareceram, em outras épocas, por não encontrarem quem as quisesse contratar.

Nos dias atuais, a intensa fiscalização do Ministério Público, a atenta atuação de entidades como a OAB e, especialmente, o permanente cuidado dos candidatos, que mais proximamente podem obter informações e suspeitar de atitudes, têm servido para diminuir os episódios de fraude em concursos, fazendo com que os casos eventuais tenham reação cada vez mais rigorosa dos organismos policiais e judiciais.

Usar o argumento de que os concursos são fraudados e não vale a pena participar deles é enganar a si mesmo, buscando subterfúgios para não enfrentar a mudança de hábitos que leva a uma aprovação mais rápida, como todos desejam, e especialmente para evitar o terrível e natural momento de responder aos amigos e familiares se você foi ou não aprovado naquele concurso que fez. Reflita sobre isso, e conclua sobre o que é mais importante em sua vida.

           

*Waldir Santos (www.concurseiros.com.br) é Advogado da União, palestrante, professor, autor do livro “Concurso público – estratégias e atitudes” e apresentador do programa de rádio “A hora dos concursos”.

 

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